segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Memória: sucata no Brasil, avião alemão sequestrado é resgatado no Ceará

Grupo de profissionais estrangeiros resgatam avião alemão no aeroporto de Fortaleza
Grupo de profissionais estrangeiros resgatam avião alemão no aeroporto de FortalezaFoto: Swen Richard/cortesia
Por fora, uma aeronave já sem leme e pronta para ter as asas também desmontadas. Por dentro, um vão sem poltronas, bagageiros ou outros indícios que lembrem o passado de plena atividade. Hoje, o Landshut, como é chamado, é um Boeing 737-200 já sem condições de voar, estacionado numa ala que funciona como um “cemitério” no Aeroporto Internacional Pinto Martins, em Fortaleza (CE). Virou sucata. Antes disso, por seis anos, ele operou voos entre o Nordeste e o Norte do Brasil. Mas é por uma razão bem mais pretérita que essa máquina é peculiar. Em outubro de 1977, quando ainda pertencia à companhia aérea alemã Lufthansa, ela foi cenário de um sequestro que chocou o mundo. Seus 91 ocupantes foram rendidos por terroristas palestinos e ficaram diante da ameaça de armas de fogo e explosivos, por cinco dias, em pleno voo. O desfecho do episódio virou um símbolo da luta contra o terror que está a um passo de ser eternizado. O avião vai voltar a seu país de origem, a Alemanha, para ser restaurado e exposto num museu.
A redenção começou a ocorrer em 2014, quando a TAF, empresa cearense que é a atual dona do avião, recebeu o primeiro contato de integrantes do governo alemão manifestando interesse em repatriá-lo. As negociações começaram e, em 24 de maio de 2017, um acordo foi firmado. A companhia concordou em ceder o Boeing àquele país, desde que haja uma referência ao fundador da TAF, João Ariston Pessoa de Araújo, morto em 2011, no local em que a aeronave for exibida. A ideia dos europeus é transportá-la em dois outros aviões maiores, do modelo Antonov, até o fim deste mês. Nas últimas semanas, o desmonte de peças vem ocorrendo. A Infraero receberá da Alemanha cerca de R$ 76 mil referentes a taxas pelo período em que o avião ficou parado no aeroporto. Já os valores desembolsados pela nação germânica para levar a máquina de volta não foram revelados.
“Quem sabia bem onde se encontrava essa aeronave era a polícia alemã, porque eles sempre estavam com a lembrança daqueles eventos horríveis de 1977 e tinham vontade de adquirir só uma peça para marcar os 40 anos dos acontecimentos. Mas, quando começou a negociação, nosso ministro soube da estada do avião em Fortaleza e pediu à embaixada e ao Consulado Geral do Recife que procurássemos saber quais seriam as condições para adquirir a aeronave”, relembra a cônsul geral da República Federal da Alemanha para o Nordeste do Brasil, Maria Könning-de Siqueira Regueira.

Sediada no Recife, a representante do governo alemão vem acompanhando os passos recentes do processo. Há pouco mais de uma semana, esteve em Fortaleza e presenciou a retirada do leme do avião. Encontrou o copiloto do voo de 1977, trazido ao Brasil pelos produtores de um documentário. “Ele estava muito impressionado, muito emocionado de ver aquilo e também antigos passageiros que foram trazidos. Para mim, foi emocionante. Lembro-me daquela época. Eu era jovem, estudante, estou sentindo ainda hoje o medo, o terror, que havia naquele Outono Alemão [período de 44 dias marcado pela luta entre o governo daquele país e terroristas]. Para nós, o avião é um símbolo da luta contra o terrorismo. Representa que a Alemanha defende seus valores, uma sociedade livre, a liberdade, o estado de direito, o nosso modo de vida. Isso vale hoje tanto quanto nos anos 70“, afirma.
Há 40 anos, quando os acontecimentos históricos se desenrolaram, o Landshut pertencia à empresa aérea alemã Lufthansa. O voo LH 181, entre Palma de Maiorca, na Espanha, e Frankfurt, no país germânico, deveria durar apenas duas horas, mas teve o curso mudado quando passava pelo espaço aéreo francês, momento em que o sequestro foi anunciado. Os quatro criminosos eram integrantes da Frente Popular pela Libertação da Palestina e exigiam a liberdade de 11 membros da Fração do Exército Vermelho (RAF) presos numa cadeia de segurança máxima na Alemanha. Pelo resgate, também foi ordenado o pagamento de US$ 15 milhões. Os sequestradores ameaçavam explodir a aeronave caso não fossem atendidos.
Os 86 passageiros e cinco tripulantes foram feitos reféns no dia 13 de outubro. Até que as negociações acontecessem, o avião pousou em cidades de seis países para ser abastecido, começando por Roma. Vários aeroportos recusaram-se a recebê-lo, o que aumentou a tensão a bordo e, por vezes, levou o piloto Jürgen Schumann a chegar ao limite do que o combustível permitia antes de descer, enfrentando barreiras feitas nas pistas por policiais e militares. Conforme relatos de sobreviventes à imprensa alemã, no terceiro dia, o banheiro fedia, faltava comida e as incertezas só aumentavam.
Depois de passar por Lárnaca (Chipre), pelo Bahrein e por Dubai (Emirados Árabes), o voo LH 181 chegou a um ponto decisivo em Áden, no Iémen. Devido a um pouso forçado sobre uma pista de terra, o piloto foi autorizado a desembarcar para analisar avarias, mas teria entrado em contato com autoridades locais. Por ter demorado a voltar para o avião, foi morto com um tiro pelo líder dos sequestradores, o palestino Zohair Youssif Akache, autointitulado capitão Mahmud. O corpo foi levado a bordo, “cheirando a sangue e morte“, como contou a comissária Gabriele Dillmann, sobrevivente da ação terrorista, a uma publicação sobre o caso. O copiloto Jürgen Vietor teve que assumir o comando do Boeing até Mogadíscio, na Somália.
Lá, o grupo criminoso fez a aeronave permanecer em solo por várias horas e concedeu prazos para que as exigências fossem cumpridas, acreditando que seus companheiros haviam sido libertados da prisão, como lhes havia sido dito durante as negociações. Foi o tempo necessário para que, em 18 de outubro, por meio da Operação Fogo Mágico, esquadrões alemães aproveitassem a distração e o cansaço dos sequestradores para entrar no Landshut. Três dos quatro terroristas morreram no confronto. Alguns passageiros e uma tripulante tiveram ferimentos. Todos seguiram em outro avião para Frankfurt. Os membros da RAF pela libertação dos quais foi motivado o sequestro se suicidaram na cadeia após saberem do fracasso dos atos.
Mesmo depois de ser cenário daqueles eventos de horror, o Landshut seguiu em operação pela Lufthansa até ser vendido, em 1985. Ele passou por várias companhias aéreas antes de ser adquirido pela TAF, em 2002. Na empresa cearense, o avião ainda fez rotas regionais com passageiros, mas encerrou a carreira, em 2009, fazendo basicamente transporte de cargas. Desde então, ficou estacionado no aeroporto de Fortaleza, virando sucata.
O comandante João Ariston Pessoa de Araújo Filho, dono da TAF, diz que nem ele nem seu pai sabiam que o avião que a empresa havia comprado tinha um passado tão marcante. Ele conta que se impressionou com o interesse dos alemães em preservar essa parte dolorosa de sua história. “Não deixa de ser uma coisa interessante, levando em consideração que, aqui no Brasil, a gente não tem essa cultura de preservar tanto. Me impressionou muito a forma como eles [alemães] dão valor. É uma aeronave que vai ficar para o resto da história, e o custo e a logística necessários para transportar esse avião não são pouca coisa. É algo que só países desenvolvidos e que preservam sua história estão dispostos a fazer”, comenta.
A ideia de levar o Landshut até o fim deste mês é para que ele chegue à Alemanha a tempo do marco dos 40 anos do sequestro. O trabalho para restaurá-lo, feito em parceria com a Lufthansa, deve levar muito mais tempo. Quando estiver pronto, o avião será exposto no Museu Aeroespacial de Friedrichshafen, no sul do país. Isso se outra cidade não conseguir arrebatá-lo para suas dependências. Flensburg, ao norte, também mostrou interesse.
Para a cônsul geral da Alemanha no Nordeste do Brasil, Maria Könning-de Siqueira Regueira, esses esforços para a preservação mostram o interesse de seu país em passar uma mensagem ao mundo. “É um trabalho importantíssimo para mostrar às gerações atuais que não se pode esquecer o que aconteceu para evitar que aconteça de novo. No caso da aeronave, é para mostrar a quem tiver interesse que a nossa democracia é o mais alto valor que nós temos na Alemanha e na Europa e que vamos fazer tudo para defendê-la. Essa é a mensagem que essa repatriação quer passar”, declara.


FOLHA PE

PORTAL BOM JARDIM
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