quarta-feira, 12 de abril de 2017

Cemitérios do Recife têm ossos pelo chão, em covas e gavetas violadas

Túmulos violados, pedaços de ossos espalhados por toda parte
Túmulos violados, pedaços de ossos espalhados por toda parteFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
A primeira denúncia feita ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE) sobre o cemitério de Santo Amaro, área central do Recife, ocorreu ainda nos anos 2000. Falava, entre outros pontos, sobre a quantidade de ossos humanos à mostra, espalhados pelo local. Dezessete anos depois, a situação continua a mesma lá e nas outras quatro necrópoles do Recife - Tejipió, ou Pacheco, Casa Amarela, Várzea e Parque das Flores: ossos de todos os tamanhos, crânios, vértebras da coluna; pelo chão, em covas e em gavetas violadas.

A cena não é, nem de longe, uma novidade. Qualquer visitante dá conta de que a situação existe e ela é resultado da falta de espaço nos cemitérios públicos da Capital para acomodar a demanda de sepultamentos, mas o desrespeito com a memória de quem se foi vem tanto do poder público quanto da família. Somam-se os casos de jazigos perpétuos abandonados, que não recebem uma manutenção há anos (de responsabilidade do concessionário, o dono), aos dos corpos sepultados em vagas rotativas (que devem ser exumados findo prazo de dois anos e um dia) que também são esquecidos.
Diretor de Operações da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), Adriano Freitas enfatiza que se um desses túmulos perpétuos está sem sepultamento há 10, 20 anos, e precisa de manutenção, a própria Emlurb a faz, para que nada fique exposto e causando riscos à saúde. “É ocioso, mas tem dono. Ali tem resto mortal, eu não posso violar o espaço da família. A gente procura manter, mas violar o espaço seria um desrespeito. É complicado”, comenta. Na prática, não é bem assim: em quatro dos cinco cemitérios, a reportagem encontrou sepulturas abertas, com ossos à mostra. No cemitério da Várzea, um crânio estava exposto há tanto tempo que dentro havia nascido plantas. A exceção é o Parque das Flores, justamente o que abriga a cova coletiva onde são depositados ossadas de indigentes e de pessoas cujas famílias não fizeram a exumação dos restos mortais.
Os sepultamentos em covas rotativas são uma problemática. As legislações não contemplam o abandono e nem preveem o que o poder público deve fazer com os restos mortais ao fim do período de decomposição. A remoção compulsória é necessária, ou se causaria um colapso nas necrópoles, como acontece por vezes no cemitério de Casa Amarela, onde um funcionário diz que, muitas vezes, precisa dizer à família que volte com o corpo porque não tem espaço para enterrá-lo.
“Se a família não vem, tiramos as vestes e a madeira (do caixão) e jogamos no lixo. Os ossos, a gente bota lá (na cova), cobre com areia e sepulta outro em cima. É por isso que a gente encontra uns ossinhos espalhados. Quando já está lotado e não tem como colocar assim, a gente tira, bota num saco e manda para a cova coletiva do Parque das Flores. Dos dois jeitos, não tem como a família reaver”, conta um funcionário do cemitério de Casa Amarela.
Questionada, a Emlurb argumentou que “enterrar caixões sobre ossadas é um procedimento muito antigo, mas os cemitérios não suportam mais”, e que, hoje, apenas a transferência para o Parque das Flores é feita. Entretanto, no cemitério de Tejipió, outra funcionária também confirma que a prática está em vigor, justificando a quantidade de ossos espalhados por todos os cantos.
O artigo 12 da Lei Municipal 15.645/92 diz que “o sepultamento de cadáveres é compulsório”, encurralando também no papel os cemitérios e o próprio município. Se não há espaço, é preciso dar um jeito, e um deles foi um reordenamento das covas nas quadras de Santo Amaro (o maior, que recebe em torno de 50 sepultamentos por dia). “Reduzimos os espaços entre sepultamentos, então onde sepultávamos dois corpos, passamos a fazer três; se tinha três, passou a ter cinco. A gente passou a localizar melhor as covas dentro das quadras, colocamos os piquetes, fica mais fácil localizar. Você delimita o sepultamento. Isso aumentou entre 30% e 40% as vagas dentro de uma quadra”, detalha Adriano Freitas, da Emlurb.
Coletiva

A imagem da cova coletiva do Parque das Flores, a qual o funcionário de Casa Amarela se referiu, é desoladora, como as sobras de uma guerra. Montes de barro e ossos por todos os lados, a céu aberto. Fica nos fundos do cemitério, numa área silenciosa de mato alto, bem em frente ao presídio Aníbal Bruno e também próxima a casas. A vala aberta exala um cheiro forte e é possível ver camadas e mais camadas de sacos usados no transporte de ossos, muitos identificados com a sigla do IML (Instituto Médico Legal).Os ossos são depositados no local em sacos próprios e identificados, segundo uma funcionária, mas o tempo e o trabalho de máquinas mistura tudo. “Impossível achar os restos de alguém (específico) ali”, responde a uma pergunta fictícia sobre uma ossada retirada de Casa Amarela sem autorização da família. “É, não tem como (reaver)”.
Nessas situações, não é válido culpar apenas a gestão quando há tanta negligência familiar com a memória de um parente. Os cemitérios não escancaram apenas o que há de pior do mau serviço público prestado, mas também o descaso com os mortos que, esquecidos, viram um problema generalizado e muito longe de terminar.
Túmulos violados, pedaços de ossos espalhados por toda parte
Túmulos violados, pedaços de ossos espalhados por toda parteFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Túmulos violados, pedaços de ossos espalhados por toda parte
Túmulos violados, pedaços de ossos espalhados por toda parteFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Cemitério Parque das Flores
Cemitério Parque das FloresFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
SÉRIE: Da morte ao descaso
SÉRIE: Da morte ao descasoFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Crânio Humano encontrado exposto ainda com Etiqueta da SDS, no Cemitério da Várzea
Crânio Humano encontrado exposto ainda com Etiqueta da SDS, no Cemitério da VárzeaFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Túmulos violados, pedaços de ossos espalhados por toda parte no cemitério de Santo Amaro
Túmulos violados, pedaços de ossos espalhados por toda parte no cemitério de Santo AmaroFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Restos de caixão e ossos deixados espalhados às vistas pelo cemitério da Várzea
Restos de caixão e ossos deixados espalhados às vistas pelo cemitério da VárzeaFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Restos de caixão e ossos deixados espalhados às vistas pelo cemitério da Várzea
Restos de caixão e ossos deixados espalhados às vistas pelo cemitério da VárzeaFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco
Crânio humano ao ar livre no Cemitério Parque das Flores
Crânio humano ao ar livre no Cemitério Parque das FloresFoto: Rafael Furtado/Folha de Pernambuco

Folha PE
PORTAL BOM JARDIM
PORTAL BOM JARDIM

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